Império de Gana

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Antônio Augusto Paganelli Pinto
publicado em 05 Março 2019

Texto original em inglês: Ghana Empire

Traditional House, Oualata (by c.hug, CC BY-SA)

O Império de Gana prosperou no ocidente africano pelo menos do século VI ao XIII EC. Não conectado geograficamente com o estado moderno de Gana, o Império de Gana era localizado na região do Sudão Oeste (atual sul da Mauritânia e Mali) tendo o Saara ao norte e as florestas tropicais ao sul. O comércio era facilitado pela abundância de ferro, cobre, ouro, e marfim, e o fácil acesso pelos rios Níger e Senegal e seus afluentes. Os reis de Gana, vivendo na capital em Koumbi Saleh, tornaram-se extremamente ricos, construindo estoques das pepitas de ouro que somente eles eram permitidos a processar. Consequentemente, a reputação de Gana espalhou-se pelo norte da África e para a Europa, onde foi descrito como uma fabulosa terra de ouro. O Império de Gana desmoronaria a partir do século XII EC depois de secas, guerras civis, a abertura de rotas de comércio em outras localidades e a ascensão do reino Sosso (c. 1180-1235 EC) e depois, o Império de Mali (1240-1645 EC).

Oeste Africano & a Região do Sudão

A região do Sudão do oeste da África (não deve ser confundida com o estado moderno de mesmo nome), onde o Império de Gana se desenvolveria, havia sido habitada desde o período Neolítico como evidenciado por túmulos, megalíticos e vestígios de vilarejos abandonados datados da Idade do Ferro. O Rio Níger inundava regularmente partes desta planície de pastagens secas e savana, o que proporcionava terras férteis para a agricultura que teve início há pelo menos 3.500 anos atrás, um esforço muito ajudado pelo montante anual de chuvas da região. Cereais como o arroz vermelho africano e o painćo foram cultivados com sucesso, assim como leguminosas, tubérculos e raízes, plantas fibrosas e oleaginosas, e frutas. A pesca e a criação de gado e cabras foram outras fontes importantes de alimento.

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O nome Gana provavelmente deriva de um título local significando rei.

Depósitos locais de cobre eram explorados e comercializados, enquanto o trabalho com metal na região, como indicado por achados arqueológicos, remonta até o século VI EC. Houve, também, muitos achados de cerâmica fina, muitas das quais foram comercializadas, como indicado por análises químicas da argila. Similarmente, o ouro era provavelmente minerado ou garimpado localmente e então comercializado ao longo das inúmeras hidrovias ali presentes, embora evidências concretas deste período inicial estejam faltando. De fato, toda a história da região e do Império de Gana antes do século XI EC permanece vaga pela falta de fontes escritas e os resultados um tanto escassos da arqueologia. Entretanto, este último aumentou dramaticamente no século XXI, e tanto a antiguidade quanto a extensão do comércio no oeste africano, em particular, são hoje considerados muito maiores do que anteriormente se achava.

Fundação

A fundação precisa do Império de Gana, ou o Reino de Gana, como às vezes se faz referência, não é conhecida. Pode-se chegar a datá-lo desde o século VI EC, mas evidências de qualquer tipo de aparato político não foram observados até mais tarde. O período em que o império esteve em seu auge é considerado ser entre os séculos IX e XI EC. O nome Gana provavelmente deriva de um título local significando rei.

Trans-Saharan Trade Routes
Trans-Saharan Trade Routes
by Aa77zz (Public Domain)

O Império de Gana era em sua maioria composto do povo Soninké (também conhecidos como Sarakole), que falavam os idiomas Mandês (também conhecidos como línguas mandingas) e que ocupavam áreas de savana entre o Rio Níger (ao sudeste) e o Rio Senegal (ao sudoeste). Estes rios e o Deserto do Saara ao norte formam o triângulo de planícies de pastagens que o Império de Gana ocuparia (hoje são os territórios norte da Mauritânia e Mali). A região dominada pelos soninké é comumente referenciada como Wagadu nas tradições orais indígenas ou Wangara, o termo para Níger Médio cunhado por geógrafos muçulmanos.

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Koumbi Saleh

É muito provável que a capital do Império de Gana tenha sido Koumbi Saleh (na ausência de qualquer outro candidato viável). Também conhecida simplesmente como Gana, é localizada a 322 quilômetros (200 milhas) a norte da moderna Bamako, Mali. A capital era muito maior do que se pensava anteriormente - as descrições árabes medievais que dão conta de uma população de 40-50.000 hoje parecem conservadoras após escavações mais recentes, que mostram uma cidade que se expandiu por uma área de 45 hectares, com vários assentamentos próximos que a circulavam. As escavações também revelaram uma mesquita significativa, uma grande praça pública, e partes de uma muralha circundante com portões monumentais. Moradias eram tipicamente de um andar e feitas de tijolos de lama seca, terra batida e madeira ou pedra, materiais utilizados desde a pré-história e ainda hoje em uso. O viajante árabe Al-Bakri, em visita, próximo ao fim da história do império, em 1076 EC, descreve a capital como sendo cercada de poços e com campos irrigados onde muitos vegetais cresciam. Ele afirmou:

O rei tem um palácio e várias habitações abobadadas, todas cercadas por um recinto como uma muralha... Ao redor da cidade do rei há prédios e bosques abobadados onde vivem os feiticeiros dessas pessoas, homens encarregados do culto religioso. Neles estão seus ídolos e os túmulos de seus reis.

(citado em Fage, 688)

Rei & Governo

Sendo, de fato, um conglomerado de aldeias governadas por um único rei, o império prosperou graças a um exército bem treinado que tinha unidades de cavalaria acesso a matérias-primas como minério de ferro para fabricação de armas e depósitos de ouro para pagar seus soldados. Talvez seja significativo que ferreiros e forjadores tenham gozado de muito prestígio na região do Sudão. A posse de camelos para transporte de mercadorias e pessoas foi outro fator contribuinte para a superioridade dos soninké sobre seus rivais. Com essas vantagens, o Império de Gana conquistou novos territórios e estados tributários de chefes tribais subjugados, e pôde monopolizar primeiro o comércio local, e mais tarde o regional.

Trans-Saharan Camel Caravan
Trans-Saharan Camel Caravan
by Holger Reineccius (CC BY-SA)

O Rei de Gana era um monarca absoluto e chefe da justiça e religião do estado. Havia certo misticismo cultivado ao redor do governante, em parte devido ao seu papel como líder da religião animista entre seu povo. Sacrifícios e libações eram realizados em sua honra, havia regras estritas de etiqueta em sua presença e, quando morriam, seus túmulos ficavam num bosque sagrado, no qual ninguém podia entrar. O viajante Al-Bakri descreveu o rei de Gana nos seguintes termos:

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O rei se adorna como uma mulher, fazendo uso de colares e braceletes, e quando ele se senta diante do povo, usa um gorro alto decorado com ouro e embrulhado em turbantes de algodão fino. Atrás do rei, dez pajens segurando escudos e espadas decorados em ouro, e ao seu lado direito ficam os filhos dos reis vassalos de seu país vestindo roupas esplêndidas e seus cabelos são entrançados com ouro. 

(citado em Krieger, 322)

O rei dependia de conselheiros e, a partir do século XI EC, até recrutava comerciantes muçulmanos para servirem de intérpretes e como oficiais que ajudavam a gerir a economia e manter conhecimento das mercadorias entrando e saindo do país. 

Mercadorias eram comumente taxadas em dobro, uma vez quando entravam no país e outra quando saíam.

Comércio na África Ocidental

O Império de Gana dominou o comércio central do oeste da África no vale superior do Rio Níger desde o século VI ou VII EC. O controle sobre o comércio regional foi um negócio lucrativo para os reis de Gana que canalizavam mercadorias como ouro, marfim, peles, penas de avestruz, e escravos para os comerciantes muçulmanos (particularmente os berberes sanhaja) que enviavam caravanas de camelos que cruzavam o Saara pela África do Norte e que traziam o valioso sal para o sul. Mercadorias eram comumente taxadas em dobro, uma vez quando entravam no país e outra quando saíam.

Além da receita obtida com o comércio, o Império de Gana tinha acesso a recursos próprios, notavelmente o minério de ferro e o ouro dos campos de Bambuk, que a elite utilizava como moeda em troca de itens de luxo como tecidos finos, miçangas, cobre, e cavalos, tudo trazido pelos árabes do norte. Outra comódite usada em Gana, além do ouro, era o fio de cobre. Os reis de Gana mais uma vez ilustraram sua posição suprema ao proibir qualquer um, a não ser eles mesmos, a possuírem pepitas de ouro; mercadores tinham de se contentar com ouro em pó. A política tinha a vantagem extra de assegurar que o rei detinha o controle do mercado de ouro, garantindo sua estabilidade ao não permitir que grandes quantidades circulassem ao mesmo tempo.

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The Ghana Empire
The Ghana Empire
by Luxo (CC BY-SA)

Influência Muçulmana

O islamismo se propagou pela região através dos mercadores muçulmanos ao passo que eles mantinham contato com comerciantes locais e com as elites das áreas urbanas. Os líderes podem ter reconhecido que adotar a religião (ou parecer adotar), ou ao menos tolerar, faria bem ao comércio. De fato, no Império de Gana, não há evidência alguma de que um rei tenha se convertido ao islamismo. Ao contrário, a capital de Gana em Koumbi Saleh foi dividida em duas cidades distintas a partir do século XI EC. Uma cidade era muçulmana e ostentava 12 mesquitas enquanto a outra, a apenas 10 km de distância, unida por muitos edifícios intermediários, era a residência real e tinha muitos santuários de cultos tradicionais, e uma mesquita para mercadores que fossem visitar. Essa divisão reflete a continuação das crenças animistas indígenas ao lado do islamismo, a original sendo praticada por comunidades rurais.

Declínio

O primeiro estágio do declínio do Império de Gana começou em meados do século XI EC. Cerca de 1076 EC quando a capital foi saqueada pelos Almorávidas da África do Norte (c. 1055 - c. 1147 EC), talvez em retaliação pela tentativa dos governantes de Gana ao forçarem sua presença nos centros de comércio do Saara. O Império de Gana lutou para se recuperar depois do saque. Governantes muçulmanos podem ter sido impostos pelos Almorávidas, porém faltam evidências concretas de qualquer tipo de conquista. Enquanto isso, cidades como Audagoste (est. 1055) foram perdidas para os reis de Gana, e então, permitiu-se que mercadores berberes controlassem mais diretamente o comércio da região.

O Império de Gana entrou em franco colapso durante o século XII EC. O declínio ocorre quando novas rotas de comércio são abertas mais a leste, e quando o clima seca de maneira incomum por um período prolongado, afetando a produção agrícola. Os governantes de Gana pouco se ajudaram, pois o império foi assolado por uma série de guerras civis, divisões talvez baseadas no conflito inerente entre as crenças muçulmanas e animistas. Enquanto isso, muitos chefes rebeldes aproveitaram a oportunidade de um governo central enfraquecido para declarar independência ao império, notavelmente Tekrur, na região do Sudão do Oeste, que controlava o Rio Senegal, e que havia inclusive se aliado aos Almorávidas.

O Reino de Sosso (também conhecido como Susu, c. 1180-1235 EC) foi o maior herdeiro do desmoronamento do Império de Gana, auxiliado pelo colapso dos Almorávidas em meio ao século XII EC. Entretanto, Sosso seria um reino de vida curta, sendo que seu rei Sumanguru (também conhecido como Sumaoro kante, r. de c. 1200 EC) foi derrotado por Sundiata Keita em 1235 EC. Sundiata também capturou a velha capital de Gana em 1240 EC, e ele viria a fundar então o Império de Mali, o maior e mais rico império já visto na África.

Com agradecimentos a Samuel Santos por sua assistência editorial ao preparar a tradução deste artigo para publicação.

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About the Translator

Antônio Augusto Paganelli Pinto
Antônio é formado em Comunicação Social pela PUC-MG, apaixonado por história antiga e medieval, tradutor freelancer e colaborador voluntário da AHE.

About the Author

Mark Cartwright
Mark is a history writer based in Italy. His special interests include pottery, architecture, world mythology and discovering the ideas that all civilizations share in common. He holds an MA in Political Philosophy and is the Publishing Director at AHE.