Timbuktu

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Antônio Augusto Paganelli Pinto
publicado em 22 Fevereiro 2019

Texto original em inglês: Timbuktu

Djinguereber Mosque, Timbuktu (by UN Photo/Marco Dormino, CC BY-NC-ND)

Timbuktu (também Timbuctoo) é uma cidade em Mali, África Ocidental, que foi um importante centro comercial do Império de Mali que se desenvolveu entre os séculos XIII e XV EC. A cidade, fundada em c. 1100 EC, conquistou riqueza devido ao seu acesso e controle das rotas de comércio que conectavam a porção central do Rio Níger com o Saara e a África do Norte, canalizando ouro, escravos e marfim do interior da África para o Mediterrâneo, e enviando sal e outras mercadorias para o sul. Sua era de ouro foi no século XIV EC, quando o governante Mansa Musa construiu mesquitas de terra batida e estabeleceu universidades que trouxeram prestígio internacional à cidade como um centro de aprendizado islâmico. A cidade prosperou ainda mais tempo do que o Império de Mali, tendo vários governantes subsequentes como o Império Songai, os tuaregues, e os pashas marroquinos, porém as descrições medievais das riquezas da cidade permaneceram por muito tempo na memória. A dificuldade que os exploradores europeus tiveram em encontrar a cidade e a nascente do Rio Niger, resultaram em Timbuktu se tornar um dos lugares mais misteriosos da geografia mundial. Timbuktu é listada como Patrimônio Mundial da UNESCO.

História Antiga & Nome

Timbuktu é uma cidade localizada próxima ao Rio Níger onde hoje fica Mali, na África Ocidental. A área ao redor de Timbuktu havia sido habitada desde o Período Neolítico como evidenciado por túmulos da Idade do Ferro, megalíticos e vestígios de vilarejos abandonados. O Rio Níger inundava regularmente as planícies entre Timbuktu e Segu a sudoeste, proporcionando terras férteis para agricultura, que teve início há pelo menos 3,500 anos. Em particular, arroz vermelho africano, juntamente com outros cereais e alimentos indígenas eram cultivados, e depósitos naturais de cobre eram explorados. O cobre era comercializado pelas rotas transaarianas ao longo do primeiro milênio EC, enquanto que evidências de lingotes de cobre fundidos para o comércio datam do século XI EC em diante. Similarmente, o ouro provavelmente era minerado na região, embora faltem evidências concretas desse período.

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Timbuktu foi fundada por pastores tuaregues, os nômades do sul do Saara.

Foi por volta de 1100 EC que Timbuktu foi fundada por pastores tuaregues, os nômades do sul do Saara, como um local vantajoso onde rotas terrestres e fluviais coincidiam. De acordo com uma lenda, os pastores cavaram um poço no local e pediram a uma velha chamada Buktu que tomasse conta enquanto eles estivessem fora. Na língua tuaregue, Tamashek, a palavra para ‘lugar’ é Tin, e então Timbuktu deriva do nome que os tuaregues deram ao lugar, Tin-Buktu, significando ‘lugar de Buktu’. Uma interpretação mais moderna, embora menos romântica, da origem do nome da cidade é que ele significa simplesmente ‘o lugar entre as dunas’. Desses humildes começos tuaregues, Timbuktu se desenvolveria num importante e autônomo porto do deserto.

O Império de Mali

A partir de meados do século XIII EC, Timbuktu, então sob o controle do Império de Mali (1240-1645 EC), atingiria novos patamares de riqueza e fama, tornando-se a cidade comercial mais importante da região do Sudão (a área que compreende desde o litoral oeste até o centro da África, se estendendo ao longo dos limites do Deserto do Saara). O Império de Mali, com sua capital em Niani, declarou independência do Império de Gana (séculos VI-XIII EC) nos anos de 1230 EC graças ao seu fundador Sundiata Keita (também conhecido como Sunjaata, r. 1230-1255 EC), um príncipe dos povos indígenas malinke (Mandingo). Sundiata iria forjar um império que controlaria não só Timbuktu, mas também Gana, Walata, Tadmekka e o Reino de Songai, fazendo suas fronteiras encontrarem o litoral do Atlântico. Assim, Mali se tornou o maior e mais rico império já visto na África Ocidental. Governantes indígenas adotaram o islã a partir de contatos com os comerciantes árabes, e o Império de Mali teria então um papel significativo na propagação do islamismo pelo oeste africano. Os locais, ou pelo menos os urbanos, eram convertidos e criavam comunidades que por sua vez atraíam clérigos muçulmanos do norte, reforçando o pulso da religião na região. Líderes locais até empreendiam peregrinações para locais sagrados islâmicos como Meca.

Map of the Mali Empire, c. 1337 CE
Map of the Mali Empire, c. 1337 CE
by Gabriel Moss (CC BY-SA)

O Império de Mali prosperou graças ao controle de rotas de comércio que conectavam o oeste e o centro africanos à África do Norte. O ouro era uma comódite particularmente importante que Mali também exercia controle de comércio na região, especialmente após a descoberta das minas de ouro do Volta Negro (hoje em dia em Burkina Faso) e da Floresta Akan (hoje em dia em Gana) ao sul. O sal em pedra do Saara era outra comódite altamente valiosa que era trocada por pó de ouro. Timbuktu operava como uma intermediária neste intercâmbio de recursos entre o norte africano e a África Ocidental. Um bloco de 90 quilos de sal, transportado por rio de Timbuktu à Djenne (também conhecida como Jenne) no sul podia dobrar seu valor e chegar a valer em torno de 450 gramas de ouro. Outras mercadorias comercializadas incluíam marfim, tecidos, cavalos, vidraçaria, armas, açúcar, nozes-de-cola (um estimulante suave), cereais (e.g sorgo e milho), especiarias, miçangas, artesanatos e escravos. Os bens eram trocados ou pagos usando uma mercadoria acordada como lingotes de cobre ou ouro, quantidades estabelecidas de sal ou marfim, ou até mesmo búzios (que vinham da Pérsia).

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Timbuktu era o ponto inicial das caravanas de camelos transaarianas que transportavam mercadorias para o norte.

Timbuktu foi uma das cidades mais importantes do Império de Mali por sua localização aproximada da curva do Rio Níger, e assim ela era alimentada pelo comércio que vinha de ambas as direções dessa grande estrada fluvial. Além disso, Timbuktu era o ponto inicial das caravanas de camelos transaarianas que transportavam mercadorias para o norte. Controladas pelos berberes árabes, as rotas estabelecidas iam de Timbuktu para Tlemcen (Algéria) e para Fez (Marrocos), fazendo paradas em oásis conhecidos ao longo do caminho. Tais caravanas tinham normalmente algo em torno de 1.000 camelos, mas as maiores podiam chegar a até 12.000, os ‘navios do deserto’. Além das conexões comerciais, havia relações diplomáticas entre Mali e Egito, e também com o Marrocos. Timbuktu tornou-se uma cidade cosmopolita de berberes e africanos sudaneses de muitos grupos étnicos abarrotada de artesãos e mercadores tanto temporários quanto permanentes.

Mansa Musa

Pelo reinado de Mansa Musa I (1312-1337 EC), mesquitas começaram a ser construídas no Império de Mali. Uma dessas foi construída em Timbuktu, a “Grande Mesquita”, também conhecida como Djinguereber ou Jingereber, projetada pelo famoso arquiteto Ishak al-Tuedjin, que foi atraído do Cairo após a visita de Mansa Musa à cidade. A mesquita foi terminada ao redor de 1330 EC. Um palácio real, ou madugu também foi construído na cidade (porém desapareceu), mesmo Timbuktu não sendo a capital. A cidade era supervisionada por um governador nomeado por Musa, que era encarregado da justiça entre uma população de 15,000 pessoas do recolhimento das taxas do comércio e da resolução de conflitos tribais. Subsequentemente, uma terceira mesquita foi construída, Sidi Yahya, para adicionar à já existente Sanjore (do fim do século XII EC). Mansa Musa também construiu muros fortificados para proteger a cidade contra incursões tuaregues. Devido à falta de pedra na região, os edifícios eram tipicamente construídos com terra batida (banco) reforçadas com madeira que normalmente apontam para fora das superfícies. Apesar dos materiais limitados, as mesquitas, em particular, são estruturas imponentes de portas de madeira enormes e camadas de minaretes. Outros edifícios incluem grandes armazéns (fondacs) que eram usados para armazenar bens antes de serem transportados, e que tinham até 40 apartamentos para abrigar os comerciantes. 

Mansa Musa of the Mali Empire
Mansa Musa of the Mali Empire
by Abraham Cresques (Public Domain)

Um Centro de Aprendizado

O aprendizado islâmico também foi encorajado, de modo que Timbuktu possuía diversas universidades em que livros eram acumulados em grandes bibliotecas e os estudantes eram treinados primeiro a memorizar textos e, para os de nível mais alto, a produzir comentários e trabalhos criativos baseados nos textos religiosos islâmicos. Um estudioso notável foi o santo Sharif Sidi Yahya al-Tadilsi (m. c. 1464 EC) que se tornou o santo padroeiro da cidade. Talvez seja importante notar que os estudos religiosos eram mais abrangentes do que podemos imaginar hoje, com as matérias ‘humanas’ tradicionais islâmicas incluindo não só a teologia, como também tradições, direito, gramática, retórica, lógica, história, geografia, astronomia e astrologia. A medicina era outra matéria a que se dava grande atenção, tornando a cidade famosa por seus doutores.

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Apesar do foco nos estudos islâmicos e a construção das mesquitas, as antigas crenças animistas indígenas continuaram a ser praticadas independentemente do islã, e até mesmo o islã que se firmou em Mali era uma variação local do que se praticava em outros lugares. Em Timbuktu, em particular, uma classe clerical se desenvolveu, sendo muitos de seus membros de origem sudanesa. Estes clérigos, os convertidos locais e os estudiosos frequentemente atuavam como missionários, propagando o islamismo para outras partes da África Ocidental, de maneira que agora ela não era percebida como uma religião estrangeira, mas muito como uma religião pertencente aos africanos negros de fato.

A combinação das três mesquitas de Timbuktu, da classe clerical e universidades significou que aquela havia se tornado a cidade mais sagrada da região do Sudão. Também é verdade, entretanto, que pelo fato de estudos religiosos e de outras matérias não serem conduzidos em línguas nativas, eles ficavam restritos às pequenas populações e elites urbanas, o impacto da educação na população mais ampla de Mali foi limitado. Ainda assim, a reputação duradoura da cidade como um local de aprendizado está contida no seguinte provérbio oeste africano:

O sal vem do norte, o ouro vem do sul, e a prata vem do país dos homens brancos, mas a palavra de deus e os tesouros da sabedoria só podem ser encontrados em Timbuktu.

(citado em Di Villiers, Prefácio)

Declínio

O Império de Mali esteve em declínio no século XV EC, quando rotas de comércio foram abertas em outros lugares e diversos reinos rivais se desenvolveram no oeste, notavelmente Songai. Navios europeus, especialmente aqueles pertencentes aos portugueses estavam agora regularmente navegando pela costa oeste da África e, assim as caravanas do Saara enfrentavam árdua concorrência como a forma de transporte de mercadorias mais eficiente da África Ocidental para o Mediterrâneo e o Oriente Médio. Além disso, em meados do século XV EC, os portugueses tiveram acesso direto às minas de ouro da Floresta de Akan, reduzindo as possibilidades de comércio de Timbuktu. Os tuaregues, comandados por seu chefe Akillu, atacaram e conquistaram a cidade em 1433 EC. Houve também ataques esporádicos empreendidos pelos povos mossi, que controlavam então as terras ao sul do Rio Níger. Por volta de 1468 EC, o Rei Sunni Ali do Império Songai (r. 1460-1591 EC), que era veementemente anti-muçulmano, conquistou Timbuktu.

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Sankore Mosque, Timbuktu
Sankore Mosque, Timbuktu
by Radio Raheem (CC BY-NC-ND)

O Império de Mali estava agora reduzido a controlar uma pequena parcela oeste do que uma vez foi seu imenso Império, e até mesmo aquela pequena parcela seria eventualmente absorvida pelo Império Marroquino em meados do século XVII EC. Timbuktu, enquanto isso, com uma população de uns 100,000 em meados do século XV EC, teve melhor destino do que o Império de Mali e continuou a prosperar como centro de conhecimento pelos séculos XVI e XVII EC quando a cidade ostentava 150-180 escolas corânicas. Muitas crônicas importantes foram produzidas que contavam a história da região (e,g o Tarikh al-Sudan c. 1656 EC e Tarikh al-Fattash c. 1650 EC). Timbuktu foi utilizada como capital dos pashas, que se tornaram príncipes independentes do Marrocos na segunda metade do século XVII EC. O Pashalik de Timbuktu terminaria no último quarto do século XVIII EC quando, não pela primeira vez, os tuaregues aproveitaram a oportunidade de um vácuo político para tomar a cidade em 1787 EC.

Tão longe como Timbuktu

Timbuktu e o Império de Mali receberam atenção internacional durante a Idade Média graças às descrições nos trabalhos de viajantes muçulmanos. A região foi visitada e descrita pelo famoso explorador de Tânger, Ibn Battuta (1304 – c. 1369 EC), que viajou pela África Ocidental entre muitos outros lugares do mundo. Battuta, visitando Timbuktu em c. 1352, descreveu a cidade com algum detalhe, notando a mescla das crenças islâmicas e animistas, o sistema eficiente de justiça, o comércio de escravos, e a falta de roupas gastas das mulheres de Mali. Outro viajante muçulmano célebre, Leo Africanus (c. 1494 - .c 1554 EC), também reconhecidamente descreveu Timbuktu, incluindo a grande riqueza da cidade. Tais histórias iriam excitar exploradores europeus do século XVIII EC, e as dificuldades de encontrar a cidade e a nascente do Rio Níger somente fortaleceram a percepção de Timbuktu como um dos lugares mais misteriosos do mundo. Não foi por nada o aparecimento da expressão ‘tão longe como Timbuktu’ ou ‘daqui até Timbuktu’, significando um lugar tão longe quanto alguém pudesse imaginar. De fato, um sintoma do afastamento e da mística envolvendo a cidade era a completa falta de acordo sobre como pronunciar seu nome, não importando onde ela realmente estivesse no mapa. Mesmo hoje, a lendária cidade continua sendo um lugar difícil de se chegar, mas aquele que consegue pode ainda contemplar elementos da áurea Timbuktu do século XIV EC hoje, notadamente a mesquita de Sancóre com sua imensa biblioteca de manuscritos medievais e livros que um programa das Nações Unidas está trabalhando para restaurar e preservar. 

Com agradecimentos a Samuel Santos por sua assistência editorial ao preparar a tradução deste artigo para publicação.

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About the Translator

Antônio Augusto Paganelli Pinto
Antônio é formado em Comunicação Social pela PUC-MG, apaixonado por história antiga e medieval, tradutor freelancer e colaborador voluntário da AHE.

About the Author

Mark Cartwright
Mark is a history writer based in Italy. His special interests include pottery, architecture, world mythology and discovering the ideas that all civilizations share in common. He holds an MA in Political Philosophy and is the Publishing Director at AHE.