Expedições Romanas na África Subsaariana

Artigo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Samuel Santos
publicado em 07 Fevereiro 2020

Texto original em inglês: Roman Expeditions in Sub-Saharan Africa

A África Subsaariana foi explorada por expedições Romanas entre 19 AEC - 90 EC, principalmente como um esforço para encontrar as fontes de valiosos bens comerciais e estabelecer rotas para trazê-los aos portos da costa do Norte da África, assim minimizando as pertubações no comércio causadas por conflitos entre tribos e reinos locais.

Roman Terracotta Oil Lamp with a Rhinoceros Image
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by Unknown (Copyright)

Muitas destas expedições começaram como campanhas militares, enquanto a última delas pode ter iniciado com interesses de relações comerciais, mas o propósito de todas elas parece ter sido sob o interesse de expandir a presença Romana na África e localizar a fonte dos mais valiosos bens comerciais. Roma estabeleceu relações comerciais com vários reinos na África, mais notavelmente Meroé, de quem mercadores traziam bens para comerciar do interior para os três grandes centros Romanos na costa do Norte da África — Léptis Magna, Oea, e Sabrata — porém o desejo por ainda mais bens, e acesso direto a eles, levou excursões Romanas às regióes Subsaarianas. As Cinco expedições foram:

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  • Cornélio Balbo — 19 AEC
  • Suetônio Paulino — 41 EC
  • Sétimo Flaco — 50 EC
  • Valério Festo — 70 EC
  • Júlio Materno — 90 EC

Estas expedições conduziram os Romanos ao contato direto com tribos que nunca haviam encontrado antes, resultando em intercâmbio cultural, a importação de bens Romanos para a África, e a exportação de bens Africanos para as grandes civilizações Mediterrâneas. Embora estudiosos Europeus do fim do século XIX e início do século XX fizessem muito da influência "civilizante" dos Romanos sobre os "nativos" da África Subsaariana, estudiosos modernos deixam claro que os povos com os quais os Romanos interagiam já tinham civilizações altamente desenvolvidas e rica herança cultural. O impacto cultural das expedições Romanas sobre as culturas Subsaariana, na verdade, ainda é debatido entre os estudiosos.

Comércio Berbere, Cartaginês e Romano

O comércio entre os diferentes reinos e tribos da África já estava bem estabelecido quando os Fenícios fundaram Cartago c. 332 AEC. As rotas de comércio terrestre, conexões e portos marítimos eram usados por comerciantes Africanos há séculos e, uma vez que os Cartagineses se estabeleceram no norte da África, contribuíram para a riqueza, prestígio e poder de sua cidade central e de outros na região. Os centros comerciais já foram estabelecidos na costa norte da África pelas tribos Berberes seminômades ou nômades da região que negociavam entre si e podiam ter exportado mercadorias para outros lugares. Pensa-se que estes sejam locais modestos que os Cartagineses então assumiram e desenvolveram. Não é claro como e com quem os Berberes podem ter negociado fora da África, mas é certo que esse comércio foi estabelecido já que os Cartagineses simplesmente assumiram os contatos comerciais Berberes anteriores. Os estudiosos R. Oliver e J. D. Fage comentam:

Como os Fenícios foram rápidos em desenvolver qualquer oportunidade de comércio que surgisse, e como suas habilidades mercantis eram apoiadas por técnicas agrícolas avançadas, até o menor assentamento costeiro tendia a se tornar uma metrópole local, onde homens da tribo Berbere podiam obter algum conhecimento de um modo de vida mais ordenado e estabelecido. (54)

Os Cartagineses estavam interessados em “civilizar” os Berberes, apresentando-os à vida e à cultura urbanas e parece que eles alcançaram seu objetivo quando os comerciantes Berberes se tornaram um item básico do comércio nas principais cidades Cartaginesas do Norte da África. Após a queda de Cartago para Roma após a Primeira Guerra Púnica (264-241 AEC), Roma se tornou a superpotência do Mediterrâneo e substituiu Cartago, tomando seus centros comerciais norte-africanos e transformando-os na região conhecida como Regio Tripolitania (“região dos três cidades ”) referindo-se a Leptis Magna, Oea (moderna Trípoli) e Sabrata.

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Old Forum of Leptis Magna
Old Forum of Leptis Magna
by Witold Ryka (Copyright)

Depois de 30 AEC, após a morte de Cleópatra VII (l. 69-30 AEC), Roma tomou o Egito e o adicionou às suas posses no Norte da África. O Egito Romano tornou-se a "cesta de pão" do império, cujo suprimento de grãos a Roma foi suplementado pelo comércio nas cidades do Regio Tripolitania. O estudioso John Reader comenta a dependência dos Romanos do comércio do Norte da África (a designação "espiga" nesta passagem deve ser entendida como "grão", não como milho Norte-Americano):

Nessa época, Roma tinha uma população de quase 1 milhão de pessoas... Essas grandes comunidades urbanas exigem um grande suprimento de alimentos e devem ter acesso a um extenso sistema agrícola, especialmente as lavouras de grãos, que são altamente produtivas, relativamente fáceis de transportar e armazenar para uso futuro... Roma e seus arredores imediatos consumiam 320.000 toneladas de espiga por ano - quase 1.000 toneladas por dia - mais de 60% (200.000 toneladas) vieram do mar das colônias Romanas do Norte da África e mais 100.000 toneladas dos campos de espiga do Egito apenas. A enorme e incessante demanda de Roma por grãos foi atendida por um mínimo de 800 travessias pelo Mediterrâneo a cada ano, em navios com capacidade de até 1.000 toneladas ou mais. (201-202)

Roma estabeleceu relações comerciais com o Reino de Cuxe após as Guerras Meroíticas (27-22 AEC), após as quais Augusto César (r. 27 AEC - 14 EC) firmou um acordo com uma das maiores Candaces de Meroé (rainhas de Cuxe ), Amanirenas (r.c. 40-10 AEC) , e mercadorias Meroíticas subiram por rotas terrestres até os portos marítimos da costa. Da África Ocidental, outros comerciantes também trouxeram seus itens para a Regio Tripolitania, mas essas rotas comerciais eram frequentemente interrompidas por conflitos entre diferentes reinos ou tribos.

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Foi sugerido que uma das tribos envolvidas no comércio desta região eram os Garamantes, embora essa alegação tenha sido contestada. Se os Garamantes estavam diretamente envolvidos no comércio proveniente da África Ocidental é realmente irrelevante, de qualquer modo, porque é certo que eles fizeram algo — possivelmente interrompendo o comércio através de ataques a caravanas — que provocou uma resposta de Roma que levou à primeira das expedições Romanas.

Expedições

Cornélio Balbo — 19AEC

moedas Romanas e outros artefatos foram encontrados na região, apoiando a alegação de que os homens de Balbo cruzaram as montanhas e exploraram a região.

Lúcio Cornélio Balbo (século I AEC) foi Procônsul da África em c. 19 AEC, quando recebeu ordens de Augusto César para derrubar os Garamantes que estavam, de alguma forma, interferindo nos interesses Romanos na região de Fezzan, na Líbia. Balbo liderou 10.000 legionários de Sabrata contra a tribo Berbere e os conquistou. Posteriormente, e talvez por iniciativa própria ou por ordem, Balbo enviou vários homens para explorar a “terra dos leões”, que ficava do outro lado das montanhas Hoggar, na região central do Saara. Os homens de Balbo retornaram com o relatório de um grande corpo de água agora considerado o rio Níger, e moedas Romanas e outros artefatos foram encontrados na região, apoiando a alegação de que os homens de Balbo cruzaram as montanhas e exploraram a região.

Esta evidência foi contestada, no entanto, pelo professor Timothy Insoll, entre outros, com o argumento de que Balbo só foi procônsul por um ano e teria tido pouco tempo para conduzir a campanha contra os Garamantes e prolongar sua estadia na região para explorar mais. (Insoll, 211). Insoll afirma ainda que não há evidências de que a presença Romana na área dita ter sido explorada no momento.

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Plínio, o Velho (v. 23-79 EC), no entanto, que detalha a expedição de Balbo em sua História Natural, sugere que foi o relatório dos homens de Balbo que permitiu a revisão do mapa romano da África por Agripa, tornando-o mais preciso (História Natural, VI.209). De fato, artefatos romanos foram encontrados na região que data da época da expedição de Balbo, mas a passagem em Plínio refere-se claramente à campanha de Balbo contra os Garamantes, e não a outras explorações. Mesmo assim, é provável que o relato de Plínio sobre a expedição de Balbo seja preciso, dadas as evidências físicas e expedições posteriores que parecem ter algum conhecimento desta primeira.

Suetônio Paulino — 41 EC

Gaio Suetônio Paulino (século I EC) foi nomeado governador da Mauritânia em 41 EC, logo após o homem livre Berbere Edemon lançar sua revolta (c. 40-44 EC), que se tornou uma rebelião generalizada dos Berberes contra a ocupação Romana. Paulino, juntamente com o general Gneu Hosídio Geta (v. c. 20 - c. 95 EC) acabaria com a rebelião com grande perda de vidas entre os Berberes e destruição, ou destruição parcial, de várias cidades.

Suetonius Paulinus
Suetonius Paulinus
by Ad Meskens (CC BY-SA)

No decorrer desta campanha, em 41 EC, Paulino liderou seus homens pelas montanhas do Atlas, no sul da Mauritânia. Ele alcançou o cume das montanhas após uma marcha de dez dias e, de acordo com Plínio (V.14), percorreu uma distância significativa pelas planícies para explorar ao longo de um rio referido como Ger e depois a área ao redor do rio Daras (atual Rio Senegal). A evidência da presença romana nessa região vem de artefatos e moedas descobertos lá, muitos na cidade de Akjoujt e nos arredores.

Plínio afirma que Paulino encontrou uma grande quantidade da planta conhecida como euphorbia crescendo na região, anteriormente identificada pelo rei Juba II da Numídia e da Maurícia (r. 30-25 AEC) como um laxante potente, mas poucos outros detalhes são dados sobre a expedição. Mais tarde, Paulino tornou-se famoso como o general que reprimiu a revolta de Boudica na Britânia em 60/61 EC, uma vitória que suplantou o que quer que ele tenha relatado em sua expedição Africana.

Sétimo Flaco — 50 EC

Em 50 EC, um Sétimo Flaco liderou uma expedição de Leptis Magna contra uma "tribo rebelde" que estava atrapalhando o comércio na região controlada pelos Garamantes (e provavelmente eram os Garamantes, mas isso não está claro). Quem Flaco era também não está claro, pois ele não está identificado com nenhuma legião e nenhuma menção anterior é feita a ele. Alguns estudiosos sugeriram que o geógrafo Ptolomeu (v. 100-166 EC), que escreveu o relato da expedição de Flaco com base em uma fonte anterior (Marino de Tiro, escrita 107-115 EC), errou o nome ou pode ter omitido informações que ele considerava desnecessárias. Flaco deve ter tido alguma formação militar, entretanto, para comandar uma força e liderá-la com sucesso contra qualquer grupo de pessoas que estivesse causando o problema nas regiões do sul.

Imperial Roman Coin Portraying a Rhinoceros
Imperial Roman Coin Portraying a Rhinoceros
by Classical Numismatic Group (CC BY-SA)

Segundo Ptolomeu, essas pessoas haviam realizado uma série de ataques a Leptis Magna, interrompendo o comércio e perturbando a paz, e Flaco marchou para o território dos Garamantes e os subjugou. Ele então viajou pelas montanhas do Tibesti e chegou à terra conhecida como Agisymba, ao norte de um grande corpo de água conhecido como “o lago do hipopótamo e rinoceronte”, que foi identificado como o lago Chade. A expedição de Flaco é a primeira que se sabe ter interagido com a população dessa região por algum tempo, mas não há detalhes disponíveis sobre o que esse contato consistia. Os estudiosos concordam que Agisymba estava ao norte do lago Chade, mas, como esse lago era muito maior na época, precisamente onde estava, qual o tamanho da região e quem morava lá é desconhecido. Supõe-se que foi controlada pelos Garamantes.

Valério Festo — 70 EC

Gaio Valério Festo (datas desconhecidas, exceto 70 EC) foi o general comandante da Legio III Augustus e os liderou contra os Garamantes em 70 EC. Festo (de acordo com o historiador Tácito, (v. 56-117 EC) marchou contra os Garamantes, derrotou-os e depois seguiu o curso anterior de Balbo para explorar a região até o rio Níger. Festo declarou para Vespasiano como imperador em 69 EC, o Ano dos Quatro Imperadores (quando quatro imperadores de Roma governaram em rápida sucessão, terminando em Vespasiano, 69-79 EC), e já tinha o comando da legião na África. Não há documentação de um comando de Vespasiano, mas como um dos partidários do imperador, Festo teria permissão para continuar depois de subjugar a tribo ou, talvez, ele simplesmente seguiu sua própria iniciativa para resolver problemas no comércio.

Provavelmente foi Festo, não Flaco, quem deixou uma guarnição de legionários da Legio III Augustus na região.

O estudioso Raffael Joorde observa que os Garamantes permaneceram não conquistados no momento em que Tácito estava escrevendo suas Histórias (c. 109 EC) e, portanto, seja qual for a natureza do conflito, parece ter concluído um tratado de paz nos moldes do qual Balbo fez após sua campanha ou então a iniciativa de Festo era apenas contra tribos na região dos Garamantes ou um elemento criminoso cuja repressão o rei Garamantiano teria aprovado, já que parece que Festo teve o apoio do rei em suas futuras viagens que finalmente o trouxeram para a cidade de Tombuctu na região do Mali. Provavelmente foi Festo, não Flaco (como costuma ser citado), que deixou uma guarnição de legionários da Legio III Augustus na região.

Júlio Materno — 90 EC

Por mais que Festo concluísse negócios com os Garamantes, eles pareciam estar em amizade com Roma vinte anos depois, quando um Júlio Materno liderou uma expedição em seus territórios. Como observa Joorde, o problema com as fontes relacionadas a esta expedição é que não está claro quem era Materno e que posição — diplomata, comerciante ou comandante militar — ele ocupava. Não há menção a Materno antes ou depois de sua expedição e os detalhes da própria excursão parecem apoiar qualquer uma das três possibilidades.

Materno viajou na companhia do rei Garamantiano e, portanto, como diplomata, poderia estar criando melhores relações políticas; como comerciante, forjando melhores relações comerciais; como general, ajudando o rei a derrubar súditos rebeldes - o que teria beneficiado a ambos. Quem quer que ele fosse, e qualquer que seja o cargo que ocupasse, o sucesso de Materno parece ter sido baseado nos relatórios das expedições anteriores a ele. Como Flaco, ele atravessou - ou pelo menos viajou ao longo - as Montanhas Tibesti e explorou Agisymba e, como Festo e Balbo, explorou a região ao redor do rio Níger.

Aerial View of the Ruins at Germa (Garama)
Aerial View of the Ruins at Germa (Garama)
by Toby Savage (CC BY)

Ptolomeu sugere que a expedição de Materno foi apenas para fins lucrativos e o apresenta como um comerciante interessado em mercadorias do interior que poderiam ser adquiridas sem os "intermediários" dos Garamantes ou outros comerciantes que traziam mercadorias para a Regio Tripolitania. Se for esse o caso, é essencialmente um pouco diferente do que parece ter sido o objetivo das expedições anteriores: encontrar fontes de ouro e outros bens preciosos que poderiam ser recebidos pelos Romanos sem se preocupar com os comerciantes indígenas e seus diversos conflitos.

Conclusão

Também houve excursões marítimas Romanas planejadas e possivelmente implementadas, mas o transporte entre Roma e a África Subsaariana não era tão lucrativo e não se considerava valer a pena. O manual marítimo do século I EC Periplus Maris Erythraei (Uma circunavegação do mar Eritreu) deprecia o valor do comércio marítimo com a região e sugere que há mais dinheiro a ser ganho em outros lugares. John Reader comenta:

Em um trabalho de aproximadamente 7.000 palavras, o autor do Periplus dedica apenas quatro parágrafos, 450 palavras, à vasta região que ficava além do Chifre da África. Vários marcos estão listados, alguns portos e apenas um porto comercial — Rhapta — que se acredita estar nas proximidades do atual Dar es Salaam, embora nenhuma evidência do porto tenha sido encontrada. Esta falta de interesse na África [para o comércio marítimo] deveu-se provavelmente ao fato de que uma viagem de ida e volta à costa da África Oriental não poderia ser equipada e concluída em menos de dois anos. (203)

As viagens marítimas entre Roma e o Norte da África, por outro lado, podiam ser concluídas em menos de um mês e, portanto, eram muito mais lucrativas e, além disso, mais seguras para os investidores e a tripulação. Embora não exista um documento definidor explicitamente explicando por que as expedições terrestres foram lançadas, é razoável concluir — com base na natureza das campanhas militares e na dependência romana dos bens africanos — que seu objetivo era promover o domínio de Roma sobre bens valiosos e estabelecer trocar rotas diretamente para o interior da África sem envolver nenhum Africano real nas transações. As rotas marítimas foram sem dúvida exploradas com esse mesmo objetivo.

Nenhum comerciante Romano, trazendo itens do interior para a Regio Tripolitania, é mencionado. Portanto, o que essas expedições finalmente realizaram — se esse era o seu objetivo — é desconhecido. Parece claro, no entanto, que os Romanos interagiram em um grau significativo com a população — como sugerido não apenas pelos relatos antigos, mas pelas evidências físicas na região — mesmo que a profundidade e o significado desse contato ainda sejam debatidos.

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About the Translator

Samuel Santos
Samuel Santos é um admirador da história antiga e das grandes façanhas realizadas pelos nossos predecessores. Samuel também é o tradutor da obra "Guerras Sírias" de Apiano de Alexandria disponível na Amazon Brasil.

About the Author

Joshua J. Mark
A freelance writer and former part-time Professor of Philosophy at Marist College, New York, Joshua J. Mark has lived in Greece and Germany and traveled through Egypt. He has taught history, writing, literature, and philosophy at the college level.
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