Hauçalândia

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Antônio Augusto Paganelli Pinto
publicado em 09 Maio 2019

Texto original em inglês: Hausaland

Gobarau Minaret, Katsina (by Derric Evans, Public Domain)

A Hauçalândia, por vezes também referenciada como os Reinos Haussa, foi um grupo de pequenas cidades-estados independentes do norte da África Central entre o Rio Níger e o Lago Chad que prosperou entre os séculos XV e XVIII EC. As origens de haussa são desconhecidas, entretanto hipóteses sugerem que eles consistiam num grupo de povos indígenas que se uniram em torno da língua comum – haussa – enquanto outra teoria explica sua presença pela consequência de uma migração de povos nativos do sul do Deserto Saara. As cidades se desenvolveram graças ao comércio local e regional de mercadorias tais como o sal, metais preciosos, couro e escravos. O islamismo foi adotado por muitos governantes e pela elite das cidades-estados durante os séculos XIV e XV EC, mas também foi esta uma das razões para a perda de sua independência quando o líder muçulmano fulani Usman Dan Fodio (r. 1803-1815 EC) lançou uma guerra santa e conquistou a região no início do século XIX EC.

Geografia & Origens

O nome Hauçalândia deriva do termo haussa, Kasar hausa, que significa ‘o país da língua ‘haussa’’, embora a área também incluísse outros povos como os tuaregues, fulbe, e zabarma. O termo ‘haussa’ esteve em uso somente a partir do século XVI EC, quando as pessoas se chamavam de acordo com que cidade-estado ou reino específico elas pertencessem.

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A Hauçalândia ficava localizada na região de Sahel entre o Rio Níger e o Lago Chad na África do Norte central, em que hoje é o norte da Nigéria. Sahel é uma faixa de terra semiárida que atravessa a África, entre o Saara ao norte e as savanas ao sul. A Hauçalândia, especificamente, se estendia das montanhas Aïr (ao norte) até o platô Jos (ao sul), e de Borno (no leste) até o Rio Níger (no oeste). A região assistiu ao desenvolvimento de cidades do povo haussa de 1000 a 1300 EC.

A Hauçalândia tornou-se famosa (e ainda é hoje) por seus trabalhos finos em couro como bolsas de água, selas, arreios e sacos.

As origens exatas das cidades haussa não são conhecidas, mas as teorias incluem a migração de povos do sul do Saara que, abandonando suas próprias terras após a seca contínua e crescente daquela região, estabeleceram novos assentamentos no que viria a ser conhecido como a Hauçalândia. Uma teoria alternativa sugere que o povo haussa vivia originalmente na margem ocidental do Lago Chad, e quando o lago diminuiu (por consequência das mesmas mudanças climáticas que afetaram o Saara), eles então ocuparam estas terras mais férteis e eventualmente se espalharam para o norte e oeste próximos. Até o momento, infelizmente, não há evidência arqueológica que apoie nenhuma das duas teorias. Como consequência, existe uma terceira hipótese, de que os haussa não migraram de nenhuma parte, e sim que eram indígenas da região. O apoio para esta teoria está no fato de que não existe na história oral dos haussa nenhuma tradição migratória.

Map of Ancient & Medieval Sub-Saharan African States
Map of Ancient & Medieval Sub-Saharan African States
by Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Existe, entretanto, uma lenda fundadora, conhecida como a lenda Bayajida ou Daura, embora seja provável que isto date do século XVI EC e reflita a crescente influência do islã na região naquela época. De acordo com esta tradição, Bayajida, um príncipe de Bagdá, chegou à corte do governante do Reino de Kanem (ou do Império Bornu, que viria a ser a partir do século XVI EC). Tendo má recepção, Bayajida rumou para o leste até chegar à cidade de Daura. Lá, a rainha e seu reino estavam sendo aterrorizados por uma serpente gigante. Bayajida se voluntariou e matou a serpente, prontamente se casando com a rainha. Juntos tiveram um filho chamado Bawogari que por sua vez teve seis filhos, cada um dos quais tornou-se por si rei de uma cidade-estado haussa. Enquanto isto, Bayajida teve outro filho, desta vez com uma de suas concubinas. Esse filho ilegítimo, chamado Karbogari, teve sete filhos que governaram outras sete cidades-estados haussa. Esta estória explica ordenadamente como foram estabelecidas as várias cidades-estados, mas não explica de onde Daura e sua rainha vieram.

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Cidades Importantes & Governo

De onde quer que tenham surgido, no início do século XV muitos pequenos chefes haussa se uniram para criar várias cidades muradas que controlavam suas respectivas imediações. Tradicionalmente, havia sete cidades-estado (as hausa bakwai), mas havia, de fato, muitas mais. As mais importantes eram (as sete originais estão sinalizadas com um asterisco):

  • Biram*
  • Daura (A ritualística cidade-mãe do grupo)*
  • Garun Gobas
  • Gobir*
  • Gwari
  • Jukun (também conhecida como Kwararafa)
  • Kano*
  • Kebbi
  • Katsina* 
  • Nupe 
  • Rano*
  • Yawuri
  • Yoruba
  • Zamfara
  • Zaria (também conhecida como Zazzau)*

Cada cidade tinha seu próprio rei ou governante, o sarkin kasa, que era assessorado por um chefe conselheiro ou vizir, o galadima, e um pequeno conselho de anciãos – tipicamente consistindo de nove membros que também determinavam o próximo governante para a sucessão. Vários oficiais eram nomeados pelo rei para, por exemplo, recolher impostos e taxas alfandegárias, comandar as unidades de cavalaria ou infantaria da cidade, manter a segurança das estradas, e cuidar de determinadas colheitas. A cidade era soberana sobre outras várias chefias menores ou vilarejos de suas imediações, cada uma governada por seu próprio sarkin gari. A terceira camada desta pirâmide política era o clã da família, ou gida, muitas das quais constituíam seus próprios vilarejos.

As cidades haussa se especializavam na manufatura de certos bens específicos, como, por exemplo, corantes – especialmente índigo – em Katsina & Daura.

As populações rurais dos haussa eram de fazendeiros que cultivavam as terras pertencentes à comunidade como um todo. Com o tempo, as cidades-estados se tornaram mais centralizadas, e este sistema foi corrompido pelos reis que conferiam porções de terras como recompensa para certos indivíduos. A agricultura também se tornaria pesadamente dependente da mão de obra escrava. Enquanto isso, a sociedade habitante da cidade principal de cada reino era cosmopolita, embora fosse majoritariamente haussa. Havia escravos, artesãos, comerciantes, oficiais religiosos, acadêmicos, eunucos e aristocratas (masu sarauta) familiares ou favorecidos pelo rei.

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Comércio 

Os estados haussa comerciavam ouro, marfim, sal, ferro, lata, armas, cavalos, roupas de algodão tingido, nozes de cola, vidraçaria, metais, penas de avestruz e peles. Havia comércio com a região litorânea do oeste africano, Oyo na Baía do Benim, e o Império Songai (c. 1460-1591 EC) ao leste. Escravos eram uma importante fonte de renda para todas as cidades, mas Zaria, em particular, especializou-se em adquirir escravos através de incursões ao sul.

Metal Armlet, Hausaland
Metal Armlet, Hausaland
by The British Museum (Copyright)

As cidades haussa se especializaram na manufatura ou comércio de alguns bens específicos, por exemplo, corantes – especialmente índigo – em Katsina e Daura, ou joias de prata em Kebbi e Zamfara. A Hauçalândia tornou-se famosa (e ainda é hoje) por seus trabalhos finos em couro como bolsas de água, selas, arreios, e sacos de transporte de mercadorias para as caravanas regionais. Muitas atividades eram organizadas em associações que asseguravam os padrões de qualidade e mantinham os preços justos. A agricultura haussa, potencializada por tecnologias como a rotação de colheitas e o uso de fertilizantes, produzia alimentos que incluíam milhete, sorgo, arroz, grãos, amendoim, feijão, hena, tabaco e cebola. Além disso, havia caça e pesca e criações de cabra (importantes para rituais de sacrifícios) e burros (a principal forma de transporte). Cada cidade tinha seus próprios mercados onde comerciantes vendiam à granel. As mercadorias eram trocadas em espécie, embora o sal, roupas e escravos fossem comumente usados como uma maneira padronizada de moeda-comódite.

Arquitetura

As moradias tradicionais haussa são feitas de tijolos de barro seco em formato de pera e dispostas em fileiras usando argamassa, com a parte pontiaguda apontando para cima. As paredes eram então revestidas com gesso e recebiam decoração pintada ou entalhada. Elas eram posteriormente ornadas com adições esculpidas, novamente usando barro, criando desenhos geométricos tridimensionais como padrões entrelaçados e espirais. Um telhado seguro era alcançado através da criação de uma abóbada de barro que era reforçada por um quadro de palmeiras e folhas de palmeira, um atributo arquitetônico particular à Hauçalândia. Cada casa era cercada por seu próprio muro alto que podia conter outros edifícios instalados nele. As cidades principais eram protegidas por muralhas fortificadas enormes – uma indicação dos frequentes cercos militares que aconteceram na Hauçalândia ao longo de sua história.

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Conversão ao Islã  

Ao contrário de grande parte da África Subsaariana, a área ocupada pela Hauçalândia foi amplamente intocada pelo islã até o século XIV EC. Finalmente, entretanto, uma forma de islamismo foi adotada em decorrência do contato com os comerciantes muçulmanos, missionários e acadêmicos, que vinham do leste, da curva do Rio Níger. O islã era tipicamente mesclado aos rituais animistas tradicionais e então tomava as formas distintas e características da região. Não tendo quaisquer incentivos comerciais para conquistar o favor dos comerciantes estrangeiros como os governantes e a elite haussa, as populações rurais provaram-se tão difíceis quanto em outras partes da África a se converter totalmente à nova religião, apesar de (ou talvez por isso) alguns métodos brutais como a destruição de santuários e o incêndio de bosques sagrados. A despeito da resistência de alguns chefes e a maioria da população rural, o islã acabou se firmando na região. Mesquitas foram construídas nas cidades e uma das estruturas mais antigas que restam é o minarete de barro seco de Gobarau, da mesquita de Katsina, que data do início do século XV EC. 

Rivalidades Regionais & Declínio

Relações com o império vizinho de Songai nem sempre foram pacíficas, como quando – pelo menos de acordo com o historiador Leo Africanus (c. 1494-1554 EC) – O rei Songai Askia Muhammed (r. 1494-1528 EC), conseguiu subjugar as cidades de Katsina, Kano e Gobir, tornando-as, embora brevemente, estados tributários. Pode ser que esta invasão tenha sido empreendida por outros estados vizinhos menores, uma vez que os registros de Songai e de Timbuktu deste período são notavelmente silenciosos sobre o assunto. Enquanto isso, os estados haussa faziam frequentes incursões ao sul no Vale Banue contra vários povos, incluindo os bauchi, gangola, jukun e yawuri. 

Os fulani, pastores nômades do Senegal que migraram pela África até o Lago Chad em meados do século XVI EC, se assentaram na Hauçalândia e trouxeram com eles outro aumento no interesse pela religião islâmica e pelo aprendizado. No último quarto do século XVIII EC, os fulani abandonaram o evangelismo pacífico e lançaram uma guerra religiosa na região. Nisto, os fulani foram auxiliados pelas rivalidades antigas entre as cidades haussa, as disputas internas entre as elites em várias cidades-estados, e uma população descontente que havia se tornado mais pobre enquanto a aristocracia comerciante enriquecia. Portanto, a partir de 1804 EC, o líder fulani Usman dan Fodio conquistou todas as cidades-estados haussa, convertendo-as ao islã. Usman dan Fodio, que era ele mesmo da cidade-estado de Gobir, lançou-se então a expandir seu império e estabeleceu a capital em Sokoto 1817 EC, dando este mesmo nome ao novo estado.

Com agradecimentos a Samuel Santos por sua assistência editorial ao preparar a tradução deste artigo para publicação.

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About the Translator

Antônio Augusto Paganelli Pinto
Antônio é formado em Comunicação Social pela PUC-MG, apaixonado por história antiga e medieval, tradutor freelancer e colaborador voluntário da AHE.

About the Author

Mark Cartwright
Mark is a history writer based in Italy. His special interests include pottery, architecture, world mythology and discovering the ideas that all civilizations share in common. He holds an MA in Political Philosophy and is the Publishing Director at AHE.
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